segunda-feira, 31 de outubro de 2011

Fase vermelha

A chuva tem deixado minhas paredes manchadas. Essas gotas, lágrimas do arrependimento divino, fabricam traças que gostam de comer os fungos das manchas, cânceres de meus muros.

Venho planejando comprar tintas e produzir uma arte falseada, cuja o leitmotiv seja as próprias imperfeições, pintando aleatoriamente as nojentas manchas concebendo um mural. Quem sabe eu fotografe e na moldura penduro um quadro.

Mas os dias andam ruins, sem tostões para as bobagens juvenis. - Quem sabe o tempo das ideias jovens tenham de passar em mim... - Há quinze dias não saio deste quarto para trabalhar. Não saio para comer, defecar nem algo mais. Essa chuva...

Nem mesmo um sonho para pregar estes olhos cansados vem por causa deste incessante cair de lágrimas, esse chover sem fim em meus dias. Uma torrente atormentada manipulando minha cabeça que em breve terei de usar tampão para os ouvidos. Talvez não... Há ouvidos internos que me parecem piores do que estes dependurados nos lados opostos de minha face. Talvez sejam eles próprios que já vêm me incomodando com esse não cessar da chuva! Eles que me hipitonizam e roubam meu sono, fazendo com que eu pegue a caneta e fique rabiscando essas palavras nebulosas. Essas nuvens de versos negros, o céu destes últimos quinze dias de lágrimas divinas.

É o arrependimento... Ele cansou desse mundo injusto. Está chorando há quinze dias sem parar...

Não tenho saído mais. Essa chuva que não pára me deixa solitário, sem vontade de ninguém. Como se um corpo despido estivesse jogado no chão de meu quarto. Há quinze dias não vejo ninguém. Não consigo me lembrar o rosto da última pessoa que eu vi. Mas ando confuso! Deve ser o barulho da chuva que cai há quinze dias. Um corpo no chão, sem rosto...

Só essa tinta vermelha não dá...

Fico pensando o que aconteceria se eu ficasse chorando por quinze dias. Ficaria ressecado, com a pele descamando, pois sugaria até a última gota de suor para lacrimejar os olhos. A boca secaria até a língua colar no céu da boca. E o atrito dos dentes fabricaria um pó de polimento, agrupando-se na gengiva, tendo eu de passar o dedo para que não escorregasse a areia na garganta sufocando-me.

Não está ressecado? Afinal, são quinze dias de um chorar sem fim!

Por que chorar tanto assim? Somente o arrependimento poderia causar o pranto. Uma ação que mutilasse seu ser. Um ato de ódio guiado como amor. Não haveria lágrimas suficientes para chorar. Setenta vezes sete a quantia de dias necessários para se perdoar. Conseguiria enfim estancar a tormenta. Mas seria tempo suficiente para escorrer dos olhos não lágrimas somente, mas também todo o sangue de seu corpo. Um quarto de rubro pranto. Tinta suficiente para inaugurar a fase vermelha de um novo Picasso, retalhando e refratando um rosto de mulher.

O corpo se despedaçaria lentamente, e um cheiro podre tomaria o ar. Os ouvidos atormentados com a choro-chuva. Narinas sufocadas de gases da decomposição. Olhos sem alma esvaída, a poça de sangue e um corpo jogado.

Por que chorar tanto assim? Só o arrependimento conseguiria tal intento...

Não pode ser tão cruel... Chorar de amor após o ódio. Mas sem chorar de ódio após amar e ter amado.

Há quinze dias vejo o amor seguido de ódio seguido de amor... Há quinze dias vejo o pranto seguido de chuva seguido de pranto... Há quinze dias vejo o corpo seguido de sangue seguido de manchas seguido de ódio. E ainda me restam lágrimas, me resta a chuva. Pois há quinze dias me tornei Picasso.

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