- Para quê haveria de aderir tal movimento ignóbil? Politizar e politicagem é tudo a mesma coisa. - pensava seriamente em seu escritório. Este lampejo veio à tona quando se deu conta de que seus olhos já não percorriam o escrito aberto, dentre as papeladas rascunhadas de projetos literários antigos, e sim, estava recebendo as imagens mentais do que ocorrera horas antes, num almoço mal sucedido com editores. Ainda restava em seu paladar o vinho que agarrou suas papilas gustativas, empregnando-as de acidez: "Não é de boa safra este Merlot". Fora os temperos destemperados que a cozinheira se atreveu a experimentar. Tudo me faz crer que estes aspectos sensoriais de seu paladar foram levados à últimas consequências graças as enérgicas frases dos editores:
- Estamos em período de debate político.
- É inaceitável um escrito com este porte de edição sem ao menos uma ou duas páginas entregues aos argumentos politizados.
- Romances charlatães só têm boas tiragens, e consequentemente boas vendas, no tempo em que a efervecência política cedeu aos encantos dos eventos da mídia de massa.
Como seria possível dentro de tantos embates apreciar corretamente a carne de cordeiro banhado ao molho rosé, que a tão dedicada Norma se propos a cozer. Logo seu acompanhamento francês de safra reservada empacaria à garganta.
- Politizar romances charlatães... Como se atrevem!
Regressou ao escrito de bela capa envernizada, escura. Páginas consideráveis. Amareladas não pelo tempo, mas pela preferência editorial. Um romance charlatão, como já era de se esperar. Aquele romance que agora está na moda chamar-lhes de best-sellers.
Por alguns minutos esqueceu-se das ferrenhas críticas, e voltou a devorar as páginas com avidez no olhar. É fácil descobrir o porquê. Estava ali num processo minucioso de descoberta do segredo da narrativa tão vendida mundialmente.
Começou a perquirir sobre as personagens há uma semana atrás. Não encontrou nenhum traço fundamental, perto dos livros de banca de jornal, livros estes considerados escola para nosso intelectual. O segundo caminho começara há pouco. Uns dois dias praticamente, onde o alvo eram as imagens transformadas em palavras. Percebeu que era rico em objetos de cena, e dos quais as personagens sempre interagiam. Não pode fazer analogia com Gustave Flaubert, e seu tão maravilhoso Madame Bovary, pois nunca fruiu esta obra. Porém, mal sabia ele que o realismo contido no escrito que descansava os olhos (ou buscava sugá-lo à qualquer custo), junto da veracidade com que o cinema hollywoodiano tenta nos imputar, já fora elaborado magistralmente por este senhor tido como Gustave, o Flaubert.
- Romance charlatão! Por que classificam meu estilo duma forma tão depreciativa? Devo eu elaborar um belo texto à favor do gênero. - disse estas palavras seguidas de um determinismo profundo. Fechou o livro. Organizou os papéis. Pegou outros limpos. Apontou o lápis. Olhou para sua coleção de livros na prateleira, e percebeu o quão sem brilho são os teus livros. Aquelas folhas todas frágeis, com cor de papel de jornal de meses atrás. Levantou rapidamente e foi escolhendo alguns, puxando-os da ordem em que se encontravam e começou a ler os títulos.
Começou mudar seu semblante quando percebeu que até mesmo o título dos livros não tinham nada que chamasse a atenção. Tentou abandonar seu pensamento utilizando a velha frase: "Não se deve julgar os livros pela capa". Mas noutro lampejo se ateve que sempre é instigado a comprar suas coleções na banca por causa da capa.
Correu novamente para a cadeira à frente da mesa, e percebeu a falta de equilíbrio estético que estava metido à tanto tempo. Ficou mais alguns minutos procurando argumentos. Agora não sentia mais a acidez do vinho, e o mal estar do molho ao cordeiro. Não ressoava em tua cabeça os acordes intempestivos dos editores.
Noutro lampejo, meteu a mão na gaveta da mesa, retirou dali sua carteira. Levantou-se bruscamente, e disse:
- É hora de ler os clássicos! É hora de se dedicar não a primeira prateleira da livraria, e sim o momento de buscar as personagens e os objetos cênicos dentro de livros considerados como obras-primas da humanidade.
Retirou-se rapidamente. Mal se deu conta de que todos os seus lampejos daquela tarde haviam emergidos à partir de uma tomada de consciência política, do embate ocorrido num almoço de negócios.
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